O tratamento da ambliopia com terapia dicóptica já é uma realidade em vários países, embora ainda não esteja disponível no Brasil.
Tradicionalmente, o tratamento mais conhecido para a ambliopia é o uso do tampão. Porém, nos últimos anos, novas pesquisas têm apontado que tecnologias, como videogames terapêuticos e realidade virtual, podem ajudar no tratamento do olho preguiçoso de forma complementar e mais interativa.
A ambliopia, conhecida popularmente como “olho preguiçoso”, é a principal causa de redução visual unilateral na infância. A prevalência varia entre 1% e 5% das crianças. O problema acontece quando o cérebro passa a favorecer um dos olhos e reduz progressivamente o uso do outro durante o desenvolvimento visual. Por isso, popularmente a ambliopia é chamada de “olho preguiçoso”.
O que é ambliopia?
A ambliopia é uma alteração do neurodesenvolvimento visual. Isso significa que o problema não está apenas no olho, mas também na forma como o cérebro processa as imagens recebidas.
Ela costuma surgir na infância e tem diferentes causas, como:
- Estrabismo;
- Diferença de grau importante entre os olhos;
- Catarata congênita;
- Outras alterações que prejudiquem a visão normal durante o desenvolvimento infantil.
Na ambliopia, o cérebro ignora a imagem captada pelo olho que apresenta um desses problemas. Essa supressão, por tempo prolongado, especialmente na período crítico do desenvolvimento visual (entre os 2 e 4 anos), pode levar à perda da visão binocular. Portanto, a ambliopia é uma condição muito séria e precisa de tratamento precoce.
Tratamento da ambliopia com tampão ainda é o mais usado
O tampão ocular é utilizado para estimular o olho mais fraco. Ao cobrir o olho dominante, o cérebro é “obrigado” a usar o olho amblíope.
Embora seja um tratamento clássico e ainda muito importante, ele pode apresentar alguns desafios:
- Desconforto;
- Baixa adesão;
- Vergonha em ambiente escolar;
- Resistência da criança;
- Abandono do tratamento.
Além disso, o tampão estimula um olho de cada vez, enquanto a visão normal depende do trabalho conjunto dos dois olhos.
Como funciona o tratamento da ambliopia com terapia dicóptica
O tratamento da ambliopia com terapia dicóptica representa uma nova abordagem para a condição. Nesse tipo de tratamento, a criança usa óculos de realidade virtual durante jogos de videogame, para estimular os dois olhos ao mesmo tempo. Isso favorece a visão binocular, ou seja, a capacidade de os olhos trabalharem juntos de forma equilibrada.
Na terapia dicóptica, imagens com contrastes diferentes são apresentadas para cada olho. O olho amblíope recebe estímulos de maior contraste, enquanto o olho dominante recebe imagens menos intensas. Isso faz com que o cérebro volte a integrar as informações visuais dos dois olhos, fortalecendo as conexões neurais responsáveis pela visão binocular.
Ao contrário do tratamento convencional com tampão, que busca “forçar” o uso do olho mais fraco ao bloquear o olho dominante, a terapia dicóptica não tem como objetivo suprimir um dos olhos. O foco é treinar ambos simultaneamente, promovendo uma melhora mais natural da visão.
Terapia dicóptica pode ser mais eficaz que o tampão?
Diversos estudos clínicos recentes demonstram que a terapia dicóptica pode apresentar resultados superiores aos métodos tradicionais de oclusão ocular em alguns casos de ambliopia. Além de exigir menos tempo de tratamento, a abordagem com jogos interativos costuma gerar maior engajamento das crianças, facilitando a adesão ao tratamento.
Os estudos também mostram melhora da acuidade visual corrigida e benefícios adicionais importantes, como o aumento da estereopsia — capacidade responsável pela percepção de profundidade e visão em 3D.
Acima de tudo, os tratamentos modernos passaram a focar não apenas na melhora da visão do olho ambliope, mas na recuperação da interação binocular. Essa mudança vem transformando a forma como a ambliopia é tratada nos últimos anos.
Principais benefícios do tratamento da ambliopia com terapia dicóptica
- Melhora da acuidade visual;
- Redução da supressão entre os olhos;
- Melhora da visão binocular;
- Maior engajamento das crianças durante o tratamento.
Um ponto importante observado pelos pesquisadores é que atividades lúdicas e interativas aumentam a adesão infantil, já que muitas crianças encaram o tratamento como uma brincadeira.
A terapia dicóptica substitui o tampão?
Ainda não completamente. Os estudos atuais mostram que a terapia binocular e a realidade virtual são ferramentas promissoras, mas que frequentemente apresentam melhores resultados quando associadas ao tratamento convencional, ou seja, ao tampão.
Sendo assim, a tecnologia não elimina a importância do acompanhamento oftalmológico nem substitui totalmente o uso do tampão, por enquanto. Portanto, cada criança precisa de uma avaliação individualizada.
Quanto mais cedo tratar, melhor
Um dos achados mais importantes das pesquisas é que crianças mais novas tendem a apresentar respostas mais rápidas e melhores resultados. Isso acontece porque o cérebro infantil possui maior plasticidade visual nos primeiros anos de vida.
Por isso, consultas oftalmológicas na infância são fundamentais para o diagnóstico precoce da ambliopia e de outras alterações visuais.
O futuro do tratamento da ambliopia
A tendência é que o tratamento da ambliopia se torne cada vez mais personalizado, interativo e adaptado à rotina da criança.
Atualmente, esses tratamentos ainda não estão disponíveis no Brasil. Contudo, a expectativa é que em breve estejam.
Conclusão
O tratamento da ambliopia com terapia dicóptica representa um avanço muito importante na área da Oftalmopediatria. Embora ainda não substitua completamente o tampão ocular, os estudos mostram que ela pode ajudar a estimular a visão binocular, aumentar o engajamento das crianças e potencializar os resultados terapêuticos.
O mais importante continua sendo o diagnóstico precoce e o acompanhamento com um oftalmopediatra, que poderá indicar a melhor abordagem para cada caso.
Dra. Marcela Barreira é oftalmopediatra, especialista em estrabismo e neuroftalmologista.
O consultório fica em São Paulo, capital.
Para mais informações, ligue para (11) 96902 8513
Fontes:
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34534556/
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37203032/
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35938643/


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